sexta-feira, 19 de junho de 2015

E daí..

E daí você abre a porta do quarto e respira o cheiro dele. Respira o ar dele. Observa as cortinas abertas, a mesa de cabeceira desarrumada. O travesseiro sem a cabeça dele recostada. 
Daí você sente o calor subir na alma. Sente a dor tocando feito brisa matinal. Sente a falta. Sente a presença, sente o ar do sorriso dele. Olha o café. Olha a mesa com outro lugar vazio. Anda descalça pela casa para não fazer barulho para não assustar os pensamentos profundos. 
E daí você se lamenta e tenta dizer para si mesma que já passou, mesmo querendo que as coisas estivessem ali no mesmo eixo no mesmo lugar no mesmo hemisfério. Mas nada faz mais sentido quando o amor vai e esvai nos olhos. 
É dor que dói mesmo sem consentimento. E o tempo agora mudou os ventos, mudou a direção. Mudou o humor. Mudou a consistência dos dias. Tudo parece nevoa, tudo parece querer virar solidão. Nas mãos o toque no peito, para sentir a batida do vazio. 
E daí você descobre que agora é cada um por si e sem interferências. Sem inerência. Sem disponibilidade. É saudade. Da porta para dentro, da porta para fora. Por onde quer que ele agora esteja.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Por um instante..

Manhã de um dia meio nublado, mas com um solzinho filtrando o rosto através da fresta da janela. Uma espreguiçada, um olhar para o relógio. O cansaço bate as pernas que costumam zanzar de um lado para o outro sempre buscando algo para fazer, seguem na batida do dia.
Ellen prepara um café e discute consigo mesma. Conversa e relembra do sonho da noite passada. Da madrugada meio agitada, e do terror noturno. Por alguns instantes resolve ir até a varanda. O sol, agora está um pouco mais forte do que há uma hora. 
Senta-se na cadeira branca, quase intocada. Passa a mão pelo rosto, pelo cabelo. Olha o céu agora mais aberto e azul, apesar das folhas caindo no meio do jardim. Folhas que se misturam as outras. Dançam com o vento. 
Ela percebeu algo diferente. Sentiu algo diferente. Como se nunca tivesse tido tempo de reparar melhor nesses pequenos detalhes, nesses pequenos contrastes do cotidiano.
Precisava de algo. Precisava de estimulo. Sentou-se e ficou ali a olhar a paisagem. Lembrou-se da água fervendo na cozinha e foi passar o café. Resolveu deixar a vida virtual de lado por uns momentos e colocou uma música na sua rádio preferida.
Talvez precisasse de algo diferente, algo mais atraente. Algo que a deixasse menos enlouquecida. Ou, quem sabe, atrevidamente apaixonada, perdida.
Foi ao espelho do banheiro, olhou-se. Olhou as mãos marcadas, o rosto com alguns sinais de expressão. 
E aos poucos foi revirando-se por dentro. Como conseguiu chegar até ali... Assim pensou. 
Deu um sorriso a si mesma, e sentiu aquele imenso vazio rondando a casa, rondando a alma, rondando os passos que de tão rápidos, muitas vezes a deixara para trás, para o silencio da sua própria existência. Retorna e vai lá tomar o café.
Por uns instantes têm insights, lembranças, passagens.
Ao sair da cozinha depara-se com o livro que ganhara de um amor antigo. Ao abri-lo sente o perfume dele. Sente a presença dele. Queria estar com ele agora. Mas não pode. O destino os levou para distâncias extremas. 
Ela se (re )toca. Veste-se e mais uma vez se ajeita. Agradece pelo dia que (re) começa, e pela luz da alma que algumas vezes pisca, mas se mantém acesa.

Sil Guidorizzi..